sexta-feira, 10 de junho de 2011

Bangladesh versus Santa Monica

Por André Veronese


Li uma notícia cujo título realmente me chamou a atenção. Na hora que vi a manchete percebi que alguma coisa ali poderia ser hipócrita, típico do ser humano. Em outras (e poucas) palavras, me identifiquei.

O título do fato é: “Menina morre em Bangladesh após receber 80 chibatadas”. Assim como a maioria dos leitores, fiz uma cara feia como quem diz “Ai...”. Ao tomar conhecimento dos detalhes de tal acontecimento, descobri que a menina realmente havia cometido um ato bem ilegal, eu diria. Ela tinha apenas 14 anos e mantinha relações sexuais com um primo de 40 anos e já casado.


Duvido que, caso isso acontecesse no Brasil, muitos logo não julgassem a garota e não a apedrejassem moralmente antes de saber que ela viria a falecer. Chamariam a pré-adolescente de vagabunda, vadia e outras palavras de baixo calão relacionadas à promiscuidade. No entanto, após sua morte - bem equivocada, a meu ver -, ficariam com dó. “Ah, coitada, ela não merecia morrer”, seria a frase mais ouvida. De vagabunda a coitada.

O processo é muito simples. Já ouviu falar de preconceito? Pois é, isso nada mais é do que um conceito de alguém/algo já criado anteriormente sem saber absolutamente nada de relevante sobre o ser/objeto. Isso me irrita. Fala-se muito de racismo, principalmente em eventos esportivos e shows, mas o buraco é ainda mais embaixo. Além da ideia ridícula de que uma raça pode ser superior a outra qualquer, o preconceito intra-racial - entre pessoas brancas, por exemplo - é um dos piores. Já ouviu falar de bullying? - significa sacanear o coitado do colega porque ele tem dificuldades de aprendizado, tem uma orelha maior que a outra ou não tem dinheiro para comprar uma par de meias novas. Normal é o cidadão que zoa e faz chacota? Este sim tem problemas de verdade.

Em Santa Monica, nos Estados Unidos, houve uma onda de racismo em uma escola de ensino médio em abril de 2005. Um dos diretores da escola, Oscar de La Torre, citou uma frase sensacional: “É fácil para uma sociedade que cria ricos e pobres culpar os pobres por todos os males da nossa sociedade”. Quem acha que apenas no Brasil existem ricos e pobres, no caso brancos e negros, respectivamente, deveria mudar um pouco seus conceitos.

Seja em Bangladesh, em Santa Monica ou em Araçatuba, as injustiças continuam com mais frequência. Pode ser uma questão de cultura, talvez. É normal sacrificar seres humanos em alguns países ou até mesmo jogar bebês em latas de lixo em outros locais. É normal desrespeitar as pessoas que você ama devido à crença em um deus desconhecido? Todos têm o direito de lidar com questões políticas, éticas e religiosas da maneira que quiserem.

Mas, mesmo assim, eu pergunto, de coração: isso tudo é normal mesmo? “Culturas diferentes” é realmente a resposta para o desrespeito à vida humana? Isso é desculpa. E bem esfarrapada.

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