segunda-feira, 6 de junho de 2011

Artigo: Mídia

Por Padre Charles Borg


O galo é culpado pela negação de são Pedro. Sentença de um pregador evangélico, reportada, recentemente, num jornal de circulação nacional. Conhece-se o episódio. Na última ceia, o Senhor Jesus predisse que Pedro iria, por três vezes, negar conhecê-lo antes do galo cantar duas vezes. Comentando o fato, o pregador teria culpado o galo pela covardia de Pedro. Se o galo não cantasse, insinuou, Pedro não teria negado a Cristo. Abomina-se, então, o galo e absolve-se a Pedro!
Emerge uma semelhança interessante entre esta inusitada leitura da negação de Pedro e a censura que os meios de comunicação recebem pelas denúncias que divulgam. A Mídia é culpada pelos inconvenientes que transgressores sofrem quando seus desvios são denunciados. Apedreja-se, então, a Mídia.
Faz-se logo necessário frisar que existe uma diferença de gênero entre a Mídia sensacionalista e a outra, mais séria e responsável. A do tipo sensacionalista se esmera em explorar sentimentos e impulsos primitivos, tanto por uso de imagens como pelo tom do discurso. Em linhas gerais, este estilo de comunicação usa como principal referência o gosto popular, satisfazendo mórbidas curiosidades, invadindo privacidades e escancarando intimidades. Normalmente este gênero de comunicação é superficial, verborrágico.

A outra Mídia, mais sóbria, aborda os mesmos fatos, com a preocupação não somente de informar, mas também de formar opiniões sobre os acontecimentos. A intenção desta escola de comunicação é manter seus destinatários informados, cuidando de passar-lhes informações exatas. Reconhece o direito dos cidadãos à informação, mas entende, igualmente, que não pode descuidar da ética e da correção nas reportagens. Cuida de passar notícias averiguadas e não apenas versões ou impressões. Este tipo de Mídia tem na credibilidade o seu maior patrimônio. Credibilidade e sobriedade, afinal, sempre caminham juntas.

Meios de comunicação sérios reconhecem que a responsabilidade perante a sua clientela não lhes permite ser omissos. Contudo, antes de primar por ‘furos de reportagem’, cuidam de apurar os fatos, abrindo igual espaço para todos os envolvidos. Afinal a verdade, isto é, o conhecimento exato de uma realidade, é um dos pilares basilares de uma sociedade madura e responsável.

O jornalismo investigativo presta um serviço inestimável à sociedade. Deve-se a estes comunicadores a mobilização popular contra tanta corrupção, causadora de enormes prejuízos para a sociedade, em todas as áreas do convívio, inclusive o religioso. Claro, denúncias causam desconforto. Todavia, se não fosse este tipo de jornalismo, realizado não raramente sob graves riscos, muita situação vergonhosa teria permanecido não somente escamoteada, mas impune, com negativas consequências para a sociedade em geral, culpar a
Mídia por esta indignação é uma atitude pueril. Seria culpada se inventasse ou mentisse. Os meios de comunicação são condenados porque, ao divulgar improbidades, além de expor pessoas, atrapalham projetos escusos. Este é um dos motivos primeiros porque ditadores impõem censura sobre a Mídia.

Cercear a circulação de informações, maquiar a realidade, são estratégias autoritárias para manter o povo na ignorância, e consequentemente, manipulável.

Deduz-se que outra qualidade indispensável para uma Mìdia séria e confiável, é a independência. Imparcialidade plena é difícil, reconheça-se. Mas um veículo de comunicação que se apresenta sério exerce uma vigilância estreita sobre a preservação da neutralidade. Uma Mídia atrelada a ideologias ou subserviente a interesses, de qualquer natureza, se torna, inevitável e perigosamente, parcial. Mídia tendenciosa facilmente debanda para o sensacionalismo, distorcendo fatos e selecionando matérias, repassando aos clientes não o que precisam saber, mas o que ela quer e da forma como quer.

Os Meios de Comunicação possuem um inegável poder e penetração. Probos e éticos, são valiosos instrumentos na construção de uma sociedade justa e madura. Longe de culpá-los pelos pecados que denunciam, a sociedade precisa desta ferramenta preciosa para manter-se informada e atenta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário