sexta-feira, 20 de maio de 2011

Possível no Japão, mas não no Brasil

Primeiro-ministro japonês, Naoto Kan
Por Erika Tamura, direto do Japão

Nesta semana vi uma notícia aqui no Japão que chamou a minha atenção: Naoto Kan, o primeiro-ministro japonês, abre mão de seu salário como primeiro-ministro até que o problema da usina nuclear de Fukushima seja solucionado.

Incrível, não? Eu, que sou brasileira, achei inacreditável, aliás, demorei um pouco para assimilar a notícia quando vi, mesmo assim fiquei pensativa, pois nunca vi um político brasileiro agir dessa maneira. E será que um dia verei? Posso sonhar com isso.

Para o povo japonês foi uma surpresa, mas nem tanto, porque os japoneses já esperavam que alguma atitude desse nível seria tomada por Kan. O premier japonês vinha sofrendo uma série de críticas da mídia local, dizendo que as atitudes de Kan eram muito apagadas ou quase que inexistentes. A imprensa japonesa também falou que esperava mais ação de Kan após o terremoto e tsunami, e todos achavam que ele estaria muito omisso perante a gravidade da situação.

E, como uma reviravolta, ele anuncia a renúncia de seu salário como primeiro-ministro até que a situação emergencial nuclear seja sanada. Serviu como um cala-boca para muitos. Não sei se é uma estratégia política, ou algo parecido, mas a única coisa que sei é que quem sai ganhando nessa história toda é o povo japonês! Aliás, não importa o que há por trás dessa decisão, pode ser honra, orgulho, solidariedade ou interesse político, estratégia de marketing, não importa! Desde que nesse pacote todo esteja incluído o bem-estar social de seu povo.

Num país parlamentarista, seria razoável dizer que o povo não escolhe diretamente o primeiro-ministro, portanto não acredito que seja uma atitude com objetivo para a obtenção de votos populares. Mas que é uma atitude louvável, é sim!

Não poderia deixar passar em branco esse acontecimento. Os japoneses já estavam esperando por alguma decisão do tipo, mas, para nós, brasileiros, isso parece coisa de outro mundo, e acho que deve ser mesmo. O Japão é outro mundo, um mundo único e com um diferencial: respeito a todos!

Aqui no Japão aprendi muita coisa que mesmo vivendo cem anos no Brasil não teria aprendido! Aprendi que todos são diferentes, mas dividem um mesmo espaço sem conflito. Eu não penso igual a você e nem concordo com o que você diz, mas respeito a sua opinião, como quero que você respeite a minha. É mais ou menos assim viver no Japão.

É só sair às ruas para vermos como cada um tem a sua maneira de vestir e ninguém fica criticando ninguém. Pode parecer estranho, mas todos respeitam. Num mesmo espaço, podemos nos deparar com senhoras de quimono e mulheres com roupas excêntricas e cheias de piercing, mas vivem lado a lado, respeitando-se. Isso é o Japão.

Sinceramente, eu sonho com o dia em que o presidente da República no Brasil abra mão de seu salário para que sobre mais verba para sanar um problema no país. E reine no Brasil um sentimento único de união para consertar o que não vai bem. A educação, por exemplo, o acesso às escolas deveria ser para todos universalmente com igualdade no nível de ensino. O Japão não tem esse problema. A educação é exemplar, todos, sem exceção, vão à escola. Pelo menos o ensino fundamental e médio são obrigatórios.

Kan fez o anúncio logo depois que a Tokyo Electric Power, operadora da usina de Fukushima, disse que alguns de seus principais executivos não receberão seus salários por período indeterminado. O ministro da Indústria, Banri Kaieda, que tem um papel importante na política nuclear do país, disse após a entrevista de Kan que também vai renunciar a seu salário ministerial. Kan pediu desculpas ao público por não conseguir evitar a crise nuclear, ocorrida após o terremoto de 11 de março e o tsunami que atingiu a região Nordeste e deixou cerca de 25 mil mortos e desaparecidos e obrigou cerca de 120 mil pessoas a viverem em abrigos temporários.

Alguém já imaginou uma situação dessa no Brasil? Os governantes pedem desculpa à população por não terem conseguido evitar uma tragédia natural?

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