terça-feira, 24 de maio de 2011

Poetagem: Morada

Por Tito Damazo

Movida pela força maior que lhe imputou a sina, decidiu que ali era o lugar.

Havia percebido, senão intuído, que aquele local era o mais bem apropriado.
O recinto vinha ao encontro de suas aspirações. Boa proteção. Lugar de bom acesso. Bons ares. Umidade desejável. Temperatura em bom grau e na maior parte do tempo estável. Excelente luminosidade. Barulhos no limite aceitável. Os danos provocados pelas intempéries afetariam muito pouco.

Certamente nada que levasse a uma dessas constantes catástrofes que vitimam inumeráveis seres, objetos e residências. É certo que muitas pela negligência dos moradores quanto a esses aspectos ao se instalarem e à não manutenção da morada, ainda que esta seja passageira. Daí que não poucos tiveram-na completamente arrasada. Outros, além disso, perderam vidas inestimáveis.



Claro que sua decisão não foi fortuita e pura e simplesmente intuitiva, ou ao acaso. A vida lhe ensinara a não ser tão apressada e aprendera que primeiro devia conhecer bem o que pretendia para depois decidir.

Aprendeu então a pesquisar. Esteve várias vezes ali e em horários diversos para ver, sentir, ouvir, cheirar, de maneira pacienciosa, o ambiente. Munira-se de irrefutáveis elementos para argumentações a convencer o companheiro de que aquele era o lugar devido.

Sim, pesquisou mais ambientes. Uns deploráveis. Expostos a toda sorte de perigos. Completamente vulneráveis, desprotegidos das fúrias das tempestades demolidoras, sobretudo as extemporâneas, não previsíveis, embora eles dificilmente errassem em pressenti-las.

Dos salteadores proteção zero. Não demora muito, aparecem investindo sobre o que for mais suscetível, o que estiver mais à mão. Violentos, possessos e impacientes, vão agarrando o que puderem.

Deixam desolação, dores e sentimento de impotência. Destroçam o que se construiu com muito trabalho disciplinado, desgastante. Nada resta senão lamber as feridas, mútuas consolações, reconfortos e encorajamento para recomeçar.

Como a maioria, também passara mais de uma vez por esses dilacerantes momentos. Também, como alguns, não jogara a toalha, pois na luta pela sobrevivência o único impeditivo é o nocaute.

Pois bem. Decisão tomada, anunciou-a ao companheiro, propondo que ele fosse conhecer o espaço.

Este, como de praxe, antes de concordar, passou a lhe fazer uma série de questionamentos a respeito de tudo que se relacionasse com uma confortável morada, desde a garantia de proteção, não só a eles, como principalmente aos filhos, que logo, logo estariam neste mundo; frágeis, indefesos e sujeitos a toda sorte de ameaças contra sua vida.

E considerara, com inteira razão, que essa vulnerabilidade deles seria praticamente absoluta, quando ambos se ausentassem para cuidar da subsistência.

Entretanto, havia-se preparado para essa inquirição e convictamente convencera-o a conhecer o ambiente, ela tinha certeza, de sua nova morada. Disse-lhe que até mesmo já travara conhecimento com alguns vizinhos e tudo indicava que rapidamente fariam excelentes amizades.

Mas nunca os próprios olhos tudo enxergam. Ele examinava tudo, cumprimentando-a por aquele maravilhoso achado. Era perfeito. Depois, com uma sutil consternação, fê-la ver o, certamente, irremovível problema.

Mas, surpreendentemente, não a demoveu da ideia. Pelo contrário, não permitiu que jogassem a toalha. Apesar de não se tratar de vida ou morte, lutar era preciso. E assim o fizeram. Tudo tentaram. Madeiras de todo tipo que conheciam foram experimentadas. Porém não se sustentavam. Tiveram muita pena de si mesmos e dos filhotes prestes a serem engendrados.

O alpendre era um lugar como nenhum, mas vigotas acentuadamente perpendiculares não permitiam que o ninho se fizesse.

Urgia desistir e estabelecerem-se, agora com certa pressa. Os ovos pediam que os botasse, para que, chocados por ela, acabassem sendo destroçados pelos filhotes ao nascer.


Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e da AAL  (Academia Araçatubense de Letras)

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