sexta-feira, 27 de maio de 2011

O grito dos românticos

Por Hélio Consolaro

“Vou-me embora pra Pasárgada” foi o poema de mais longa gestação em toda a obra de Manuel Bandeira, segundo confissão do próprio poeta. Enquanto esperava tal poema, escreveu livros, ou seja, outros poemas.

Há muitos sítios, bares, refúgios com o nome de “Pasárgada” pelo Brasil. Que significa tal nome, onde o autor foi buscá-lo? Sei que tais perguntas são básicas, qualquer estudante de Literatura já as respondeu, mas escrevo para leitor de jornal, que não é especializado, então, toda explicação não é demais.


Esse nome de Pasárgada foi visto por Manuel Bandeira quando tinha 16 anos num livro de autor grego, mas perdeu a fonte, esqueceu-se dela. Um amigo lhe disse que Estrabão e Arriano falaram na famosa cidade fundada por Ciro. Pasárgada, então, significaria campo de batalhas dos persas ou tesouro dos persas.

Não importa bem a origem. A fonética do nome, a incerteza da origem criou no imaginário do poeta bem jovem, Manuel Bandeira, que já vivia perseguido por uma tuberculose, ser o lugar de seus sonhos, “um país de delícias”, onde não se tem a lógica do cotidiano:

“Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive”

Vinte anos depois, num momento de depressão e desanimado com a doença persistente, eis que surge novamente o nome do lugar imaginário, surgiu o verso como se fosse um grito de libertação: “Vou-me embora pra Pasárgada”, mas ficou nisso.

Alguns anos depois, em idênticas circunstâncias de desalento e tédio com a vida besta, surgiu o mesmo desabafo de evasão. E o poema saiu sem esforço, veio pronto. A evasão é espacial, porque ele quer ser transladado para Pasárgada; e temporal, volta ao passado, porque lá é amigo do rei, quando as regras comportamentais não eram bem definidas. Assim como “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias, tem o “lá” (Brasil, o ideal) e o cá (Portugal, o real), Manuel Bandeira joga também com esses dois advérbios: cá (vida besta) e lá (vida cheia de aventura).

Os moralistas não gostaram, porque em Pasárgada tinha alcaloides (drogas). “Tem um processo seguro / De impedir a concepção”. Era um lugar do jeito que o diabo gosta, e o Deus (dos moralistas) não entra.
Era o resumo de sua vida: a procura de um mundo ideal, onde só existia o prazer. Embora Manuel Bandeira seja modernista, em “Vou-me embora pra Pasárgada” se revela romântico, buscando uma fuga, o escapismo, idealizando a realidade, confessional como toda a sua obra.

“Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura”

Aliás, ele sempre viveu com a doença dos antigos românticos, a tuberculose, levando uma vida pela metade, sem beijar mulheres, e chegou aos 82 anos de vida (1886-1968). E fez muitos poemas para a cruz de sua vida: a doença.

Se Gonçalves Dias é conhecido pela “Canção do exílio”, Manuel Bandeira, por “Vou-me embora pra Pasárgada”. E ele tinha consciência disso: “Não sou arquiteto, como meu pai desejava, não fiz nenhuma casa, mas reconstruí, e não como forma imperfeita neste mundo de aparências, uma cidade ilustre, que hoje não é mais a Pasárgada de Ciro, e sim a minha Pasárgada”.

Entre nós, há muitos procurando sua Pasárgada; a exemplo de Manuel Bandeira, praticando suas evasões, algumas aceitas, outras condenadas, pela sociedade. E esse é o papel da arte: imitar a vida, buscar a catarse, registrar o grito.

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