segunda-feira, 23 de maio de 2011

A língua em debate

Por Talita Rustichelli

Um livro distribuído pelo MEC para ser utilizado na EJA (Educação para Jovens e Adultos) tem levantado, nas últimas semanas, uma discussão sobre o ensino da língua portuguesa. O livro "Por uma vida melhor", da coleção "Viver, aprender", tem um capítulo destinado a explicar aos alunos as formas culta e popular da língua.

A polêmica tem girado em torno do falar "certo" ou "errado". Um exemplo dado pelos autores é a frase "os livro ilustrado mais interessante estão emprestado", com o qual explicam que, na variedade popular, o fato de haver a palavra "os" (no plural) já indica que se trata de mais de um livro. O livro de português foi distribuído em 4.236 escolas do Programa Nacional do Livro Didático para a EJA do MEC. De acordo com dados do Ministério, cerca de 500 mil alunos tiveram acesso ao material.
A professora e linguista Roseli Imbernom do Nascimento afirma que à escola cabe o ensino formal, da gramática normativa. Para ela, o aluno tem que ter o conhecimento da padronização da língua, mas sem que sejam desprezadas as variações linguísticas. "Há professores, por exemplo, que usam o personagem Chico Bento em exercícios para corrigir sua fala. Isso é preconceito", diz.

Ela explica que a linguística, ciência que embasou a autora do livro, trata de descrever e explicar as línguas naturais. "Enquanto a gramática normativa prescreve regras, a linguística estuda a língua. O ideal é fazer a união das duas áreas, para que não se vá ao extremo do 'pode tudo' e do 'nada pode'", diz. "Não há erro na não utilização da concordância, por exemplo, mas inadequação de uso formal da língua. O aluno pode ser incentivado a falar daquela forma se o professor não tiver a responsabilidade e domínio do assunto", afirma Roseli.

Momento
A professora de português Cidinha Baracat acrescenta que a forma de falar varia de acordo com o momento e finalidade. "Assim como temos uma roupa adequada para cada situação, a língua também deve ser adaptada às circunstâncias. O sambista Adoniran Barbosa, por exemplo, cantava e falava de forma considerada errada para atingir determinado público".

Cidinha também defende que todos os registros (várias linguagens) que são usados para comunicação são igualmente válidos. "Todos são importantes. O professor não pode dizer que o aluno fala errado, mas deve apresentar-lhe as outras formas. A escola existe para que o aluno conheça novas formas de comunicação, principalmente a culta. Para aprender a linguagem falada não é preciso ir à escola", completa.

Norma
O professor Tito Damazo, doutor em Literaturas em Língua Portuguesa, afirma que é consensualmente admitido pela gramática e pela linguística que a aprendizagem deve considerar as várias formas de linguagem. "A língua padrão, como o próprio nome diz, tem uma norma. Não se pode deixar que cada um leia e escreva como bem entender, senão não se constitui uma língua. Mas também, não se pode desprezar as outras formas de linguagem", diz.

Para o professor, não se pode ser radical e nem dizer que a língua padrão é exclusividade da elite. "Não se pode manter uma forma de discriminação com determinados grupos sociais. O conhecimento e domínio da língua podem auxiliar para que o indivíduo cresça social e economicamente".

Um comentário: