terça-feira, 24 de maio de 2011

As novas faces das estações

Por Bárbara Nascimento


Se até o final da última década do século 20, as estações ferroviárias eram erguidas como sinônimo de progresso, resultando na fundação de cidades, centralização da vida das povoações e demonstração de arquiteturas variadas, com construções desde as mais suntuosas até as mais simples, hoje o cenário é completamente inverso. Os espaços sofrem a ação do tempo e a falta de investimentos para sua manutenção e preservação de suas estruturas centenárias.


Há ainda um outro fator que contribui para a descaracterização destas estações. É que todas adquiriram ao longo do tempo uma nova função: servir como moradia e consequentemente se tornaram propriedade privada ou ainda espaços para o funcionamento de entidades sociais e educacionais da cidade. O trio de estações araçatubenses é integrado pela antiga Estação Ferroviária de Araçatuba, situada na Avenida dos Araçás, no Centro da cidade; a Estação Ferdinando Laboriau, construída em 1927, há 15 quilômetros do perímetro urbano; e a Estação de Taveira, erguida em 1911 no bairro rural Engenheiro Taveira. A primeira determinou a fundação de Araçatuba, em 2 de dezembro de 1908. Após várias ampliações, sua atual infraestrutura foi consolidada em 1963.

MORADIA
A Estação de Ferdinando Laboriau, por exemplo, é habitada há 20 anos por Valdir Roberto Queirós, de 51 anos. Ex-agente ferroviário da extinta RFFSA (Rede Ferroviária Federal S.A.), gestora da malha ferroviária brasileira até 1995, ele conta que ingressou na empresa em 1987, por meio de um concurso público, recebendo em 1991 a proposta da empresa para morar por tempo indeterminado com a esposa e os três filhos nos três cômodos da estação.

Após um ano de experiência, um contrato de permissão foi concedido para que a permanência na estação estivesse garantida para as demais gerações de Queirós, caso tivessem interesse na estadia. "Na época, eles precisavam de alguém para cuidar do local, já que alguns manobristas dormiam aqui. Dentro do quadro de funcionários ninguém queria. Então eu aceitei. Vendi a casa que tínhamos na cidade e nos mudamos em busca de tranquilidade", lembra.
“Essa estação só está de pé, porque eu pago para ela estar. Se não estivesse aqui, o prédio já teria sido demolido ou sendo utilizado como esconderijo por criminosos, usuários de drogas e vândalos. Eles (governo) deveriam me pagar para eu conservar”, destaca Queirós, ao apontar os gastos que teve para restaurar parte do chão e telhado da estação.

PRESERVAÇÃO
Ao visitar a estação, a reportagem da Folha da Região constatou que o local ainda possui as portas, janelas, pisos e divisórias dos cômodos erguidos em 1927. Apenas as paredes internas foram pintadas e mais uma sala e cozinha, além de uma área de lazer com churrasqueira foram construídas posteriormente por Queirós, que estima ter investido mais de R$ 30 mil no local. “Quero conservar isso daqui porque é a única coisa que me restou da estação, afinal até o emprego me tiraram”, afirma.

Como medida de segurança, Queirós cercou os aproximadamente mil metros quadrados de terreno da estação colocando ainda uma placa com os seguintes dizeres “Área particular, proibido entrada”. "Há uma família que mora aqui e que tem de ser respeitada. Muitas vezes quando eu chegava tinha gente aqui churrasqueando e até usando drogas”, justifica.

DETERIORAÇÃO
Mesmo com os gastos para preservação, a estação possui espaços em fase de deterioração como a perda do telhado da fachada do espaço. A Estação de Taveira possui a mesma realidade. Apesar de abrigar há 60 anos a família de Iraci Domingos, 68, o prédio está com uma infraestrutura ainda mais precária, as paredes possuem infiltrações e a estrutura de madeira que sustenta o telhado está comprometida.

A moradora que reside nos sete cômodos da estação com dois netos, um filho, uma filha e o genro, conta que o prédio foi cedido por um agente da estrada de ferro para que seu pai, na época sem moradia, habitasse por tempo indeterminado. “Como o prédio estava abandonado, nos mudamos para cá. Eu cheguei a ir embora para Minas Gerais, mas quando meu pai adoeceu, eu voltei e não saí mais”, conta Iraci.
"Dentro do possível procuramos preservar, mas não temos condições para arrumar muitas coisas. Às vezes dependo de alguns conhecidos para trocar algumas telhas e melhorar algo", relata a moradora.

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