segunda-feira, 23 de maio de 2011

Artigo: A polêmica do livro didático



Por Hélio Consolaro


“O Ministério da Educação (MEC) distribuiu a 4.236 escolas brasileiras um livro didático da organização não governamental Ação Educativa que defende a escrita sem concordância de expressões orais populares, por exemplo ‘os livro’, apoiado nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), que dizem que não há só uma forma correta de falar o português brasileiro.” Edição deste sábado, Folha de S. Paulo.

As polêmicas acadêmicas demoram décadas para chegar até a população, mesmo em época de mundo globalizado e mídias quase instantâneas. A questão de considerar o substrato linguístico do aluno na escola vem sendo tratado pela pedagogia nas escolas, não só pela linguística, desde a década de 90. Muitos livros didáticos já apresentaram isso a alunos, até apostilas de escolas particulares já abordam o assunto, mas só agora a Globo o descobriu.

Condena-se tanto o “bullying”, mas gozar um colega porque ele é pobre e fala errado também é “bullying”. A elite intelectual impõe o seu modo de usar a língua ao resto da sociedade. Como tem prestígio, são doutores, é seguida. A sociolinguística explica isso.


Quem sai perdendo ou ganhando com a polêmica foi a professora Heloísa Ramos e a Global Editora, de São Paulo. A mesma que publicou o novo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da ABL (Academia Brasileira de Letras), em 2009.

A ABL condena o livro, mas nunca se preocupou com eles, pois há muito tempo alguns livros didáticos mostram os usos da língua na sociedade, só agora, porque deu na Globo, se manifestou. E pede para não misturar linguística com gramática. Para muitos professores, uma posição conservadora. Doutora em Educação, Vera Masagão Ribeiro, da ONG Ação Educativa, responsável pela coleção “Por uma vida melhor” defendeu o livro, dizendo que ele se destina ao EJA - Educação de Jovens e Adultos, modalidade que, pela primeira vez neste ano, teve a oportunidade de receber livros do Programa Nacional do Livro Didático.

Ela disse que a ênfase do ensino é na norma culta, mas o livro não deixa de registrar outros usos da língua por classes sociais diferentes, afinal, são alunos que chegam à escola fora da faixa etária.

E concluiu a doutora: “... que o Modernismo brasileiro em 1922 incorporou a linguagem popular à literatura. Felizmente, desde então, o país mudou bastante. Muitas pessoas têm consciência de que não se deve discriminar ninguém pela forma como fala, ou pelo lugar de onde veio. Tais mudanças são possíveis, sem dúvida, porque cada vez mais brasileiros podem ir à escola tanto para aprender regras como parar desenvolver o senso crítico”.

Esta coluna considera ser necessário ter um uso da língua que seja referência, no caso é chamado de “norma culta”, para manter a unidade nacional, mas não precisa desprezar aquela pessoa que tem o jeito de falar de seu grupo por causa da baixa escolaridade.

Um profissional de nível universitário que não sabe usar a variável culta da língua deve ser repreendido, afinal, sua formação exige isso. Também é preciso dizer que não se fala “grã-fino” em qualquer lugar.

O uso da língua é como o da roupa, há uma para cada situação. E a última recomendação aos universitários: falar ou escrever bem não é querer impressionar com palavrório, é se expressar de forma simples e clara, sem cometer erros grosseiros.

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