quarta-feira, 25 de maio de 2011

Artigo: Apenas uma vez

Por André Veronese


Desde criança eu sempre quis fazer aniversário em novembro. É um mês legal, período em que as aulas estão no fim, as festas de fim de ano estão chegando e a sensação de dever cumprido durante o ano já chegou. Mal sabia que tudo iria mudar.

Logo depois dos vestibulares, cada um dos meus amigos foi para um canto diferente: Ribeirão Preto, Curitiba, Rio de Janeiro, Botucatu, São Paulo e outras localidades. Tendo visitado todos eles depois de anos de ensino superior, cheguei à conclusão de que as conversas mudaram. Todo mundo está virando adulto. Mas uma coisa é fato: as brincadeiras em churrascos, formaturas e festas são sempre as mesmas.


Ninguém podia sair da aula na época de colegial para ir ao banheiro ou para jogar alguma coisa no lixo da sala. Prontamente, cadernos, lápis e apostilas eram escondidos. Quando o sujeito voltava, só restava a borracha em cima da cadeira. Detalhe: esta última de ponta-cabeça. Se o professor via a bagunça eu não sei, mas se eu estivesse lecionando, não aguentaria e daria muita risada.

No intervalo, a coisa mudava de figura. Ficava mais dinâmico e mais emocionante. Posicionávamos-nos perto do banheiro e jogávamos sachês de catchup e mostarda bem na entrada/saída do banheiro. Quando alguém pisava perto, soltávamos um “uuuuhh” - significa “quase!” - em uma mistura de expectativa com decepção.

Porém, quando o pobre aluno pisava no sachê, comemorávamos como se fôssemos dispensados da aula porque o professor havia faltado.

Teve de tudo mesmo. Praticamente todo mundo foi expulso da sala de aula no mínimo uma vez e dormia em momentos necessários, mas não deixava de estudar. E quando chegava novembro e as provas acabavam, era um sentimento de dever cumprido - pelo menos para a maioria - e alívio de saber que não era mais necessário acordar todo santo dia às seis e meia da manhã.

Lembro que toda sexta-feira havia o futebol à tarde. Alguns iam com sentimento de culpa por não estarem estudando, mas não havia desculpa melhor para sair de casa do que praticar uma atividade física, já que precisávamos oxigenar o cérebro um pouquinho. No sábado de manhã, todos - nem todos... - acordavam cedo mais uma vez e os comentários sobre o futebol de sexta tomavam conta das aulas de matemática, biologia e física (sim, eu me lembro das aulas de sábado!).

Durante três anos de colegial - hoje “ensino médio” -, novembro foi um mês de paz. Era o “início falso” de um tempo bom. Logo, hoje é o mês que menos sinto falta daquela época. E toda vez que tentamos reviver aqueles momentos, mesmo que apenas conversando, percebemos que todas aquelas brincadeiras e momentos inusitados infelizmente aconteceram uma vez só. Mas eles estão vivos mais do que nunca agora. E sempre.

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