terça-feira, 19 de abril de 2011

Propaganda influencia a má alimentação de jovens

A prevalência de sobrepeso na população adolescente de Manaus, no Amazonas, pode estar ligada à propaganda de alimentos que é veiculada nas principais emissoras de TV de canal aberto da cidade. “Mesmo não sendo um pólo produtor de alimentos industrializados, a região é atingida pelas mensagens televisivas.

Boa parte das propagandas veiculadas se refere a alimentos classificados no grupo dos óleos, gorduras, açucares e doces. Todos alimentos densamente calóricos”, avalia Maria Emilia de Oliveira Pereira Abbud, docente o curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).


Maria Emilia é autora do estudo A influência da televisão nos hábitos alimentares de uma população de adolescentes da região norte brasileira desenvolvido no Laboratório de Nutrição e Comportamento sob orientação do professor Sebastião de Sousa Almeida, e apresentado em setembro de 2010 na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP. Num primeiro momento, a pesquisadora analisou a quantidade e a qualidade dos alimentos veiculados nas propagandas exibidas pelas principais redes de canal aberto de Manaus. “Pudemos observar que a maior quantidade dos comerciais é veiculada no período noturno, quando a audiência é elevada”, destaca. Maria Emília constituiu um acervo de propagandas que foram gravadas diariamente, entre setembro de 2007 e fevereiro de 2008.

Sentimentos explorados
Num segundo momento do estudo, a pesquisadora exibiu as propagandas a 30 alunos, de ambos os sexos, de diversos cursos da Ufam. “Optei por não apresentar a estudantes de Comunicação, já que eles possuem informações teóricas sobre o assunto”, explica Maria Emilia. O grupo tinha, em média, 18 a 23 anos. Depois de assistirem as gravações, os universitários julgaram os sentimentos explorados nas propagandas. “Satisfação, prazer e alegria foram os mais explorados”, conta a pesquisadora.

Posteriormente, Maria Emilia passou a investigar os hábitos de compra de alimentos e os hábitos alimentares dos adolescentes, relacionando-os à ocorrência de sobrepeso e obesidade. Participaram desta fase do estudo 94 adolescentes, de ambos o sexos, com idade compreendida entre 14 e 17 anos, matriculados no Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Amazonas (IFAM), em 2008. “Diagnosticamos que 11,7% dos adolescentes apresentaram sobrepeso e 7,4% prevalência de obesidade.” Assim, a soma entre os jovens com sobrepeso e obesidade mostrou que 19,1% dos estudantes estão com excesso de peso.

O nível de sobrepeso e obesidade encontrado nos adolescentes da região norte, embora mais baixo que nos países desenvolvidos e mais reduzido que em algumas regiões brasileiras, é considerado elevado. Até bem pouco tempo atrás esses índices seriam registrados apenas nas regiões brasileiras consideradas economicamente mais desenvolvidas e indicadores mais baixos seriam registrados nas regiões economicamente emergentes.

Por meio de questionário, Maria Emília obteve informações sobre os hábitos alimentares dos estudantes. “Dentre os alimentos consumidos semanalmente por mais de 50% dos adolescentes estão as bolachas doces, batata frita, bolachas salgadas, bolo, macarrão, pipoca e lasanha”, descreve.

Com base nos dados, a pesquisadora conclui que assistir às propagandas de televisão acaba sendo um fator relacionado à decisão de compra e consumo dos adolescentes. “Conseguimos identificar uma correlação significativa entre o Índice de Massa Corporal (IMC) dos jovens e a decisão de compra dos alimentos”, diz a pesquisadora.

Para Maria Emília, existe a necessidade de uma regulamentação específica sobre a publicidade em torno dos alimentos na TV. “Acredito que isso é papel do Estado. Já os profissionais da saúde e educadores cabe a orientação quanto à qualidade e quantidade de alimentos ingeridos”, defende. Ela enfatiza que os profissionais de comunicação, responsáveis pela produção e divulgação das propagandas devem ter um compromisso ético com o acesso a informação e a verdade dos fatos. O estudo contou com financiamento parcial da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).

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