sexta-feira, 1 de abril de 2011

Literatura, jornalismo e ensino

Por Ester Mian da Cruz
Hoje, mais do que nunca, professores de língua portuguesa precisam conhecer a literatura, seus fundamentos, princípios, estilos de época. O fato é que os PCNs (texto oficial com reflexões pedagógicas) propõem um trabalho com a língua materna gerado pelo reconhecimento dos diversos gêneros textuais que circulam na sociedade.

Entretanto, o que se percebe é que poucos professores estão preparados para um trabalho efetivo com os gêneros literários, pois a leitura desses textos exige o reconhecimento das características formais, estruturais e das marcas históricas nessas manifestações artísticas. Os materiais didáticos trazem trechos de obras literárias, exemplos de gêneros diversos, porém estudar excertos de obra e esquemas textuais ou tipos textuais não garante ao aluno um aprendizado que o torne um leitor consciente e crítico.


Alguns professores consomem pouca literatura de qualidade (e as razões vão desde a formação até as condições financeiras). Desconhecem processos de criação artística e, por exemplo, a fluida divisão entre prosa e poesia na modernidade, o que significa que leem com os alunos muitas vezes os textos sugeridos mais para cumprir parâmetros, modelos do que para efetivamente tornar o texto um ponto de partida, inclusive para o estudo da língua e de seus funcionamentos.

Um simples trabalho com a crônica - considerado gênero menor para os elitistas e, paradoxalmente para o senso comum - exige do professor o reconhecimento da proximidade do gênero com o jornalismo, o que significa ainda o reconhecimento da história do jornalismo brasileiro. Conhecer os principais cronistas, por exemplo, dos anos 50 e 60 pode ser dar não só uma aula de história do cotidiano brasileiro, em especial do Rio de Janeiro, mas também reconhecer estilos, formas, temas que estão presentes nessas obras. É também poder comparar o jornalismo e a literatura daqueles anos com as atividades de hoje.

Percebe-se com nitidez, atualmente, que o universo cultural é frágil e poucos sabem quem foram os cronistas, como viviam, sobre o que predominantemente escreveram. Eis que conhecer o jornalismo tornou-se crucial para entender um gênero literário (ou jornalístico?) tão explorado em nosso país.
Conclui-se desta maneira que não só as referências literárias são escassas, quanto ao jornal, sinto as mesmas complicações: um professor de língua portuguesa deve ser um leitor de jornais, revistas, pois precisará não só do conhecimento dos fatos narrados ou analisados, mas também de nomes de articulistas, jornalistas consagrados, pensadores, deverá saber da importância política e social da imprensa e, principalmente, precisará reconhecer as diferenças entre os gêneros textuais presentes nessa atividade tão antiga e fundamental ao homem na sociedade. O trabalho com os gêneros será em vão se se esgotar nos limites culturais e teóricos dos promotores da literatura impressa em tempos de avanços tecnológicos.

Ester Mian da Cruz é professora de Língua Portuguesa e mestre em Literatura Brasileira.

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