terça-feira, 19 de abril de 2011

Ensaio sobre a cegueira

Por Maria Lúcia L C. D’Avila

O nascimento de uma cultura é configurado pela aquisição do seu povo: crenças, ideias, valores, costumes, códigos e tabus. Tudo isto serve para que uma sociedade se organize de acordo com as suas características. A partir daí são criadas categorias de certo, errado, positivo, negativo, e em relação a estas categorias são atribuídos valores e expectativas.

Dentro de um contexto cultural, o que é considerado certo ou positivo é tomado como valor próprio, o resto é classificado como negativo, errado, e ao diabo pertence. Quem carrega a diferença, por ser confundido com o negativo e errado, sofre preconceito que marginaliza ou isola.



Através deste mecanismo afastamos a parte da nossa natureza, que entendemos como negativa e alienamos possibilidades que não queremos ver, mas que nem por isto deixam de existir. Em seguida surgem os estereótipos, muito convenientes porque oferecem ideias prontas sobre os indivíduos, sem que tenhamos dispêndio de energia psíquica para construir um modelo autêntico. É só seguir o recomendado, não se afastar da norma ou maioria, e não precisamos mais pensar sobre o assunto.

Passamos então a ter ideias estereotipadas sobre nós, parentes, amigos, inimigos, membros de seitas religiosas, pessoas de outras raças, classes sociais, ocupação, sexualidade e muito mais. Afastamos a diferença porque ela causa medo, daí ser vista como ameaça e não como acréscimo, aquisição ou riqueza de possibilidades que poderiam vir a ser.

Intimamente podemos até admitir nossas fraquezas, mazelas ou diferenças, mas, por medo de exclusão fazemos de conta que estas não existem e seguimos em frente acreditando que o “mal” ao outro pertence. Cumpre aqui perguntar: afinal, quem nós pensamos que somos para interferir na maneira de existir do nosso semelhante, ou para qualificá-lo de forma pejorativa? É bem verdade que na cultura do esporte aplaudimos, vaiamos e, de vez em quando, denegrimos a mãe do árbitro que nem conhecemos. Até aí tudo bem, mas partir para a ofensa pessoal por não suportar que o próprio time possa ser derrotado é ir além e ultrapassar o limite.

Dessa ordem foi o episódio que envolveu Michael, jogador do Vôlei Futuro, durante a partida com o Sada Cruzeiro de Minas, no dia 1º/abril/2011. Quando a torcida do time adversário não suportou encarar a possibilidade de derrota, uma vez que esta é considerada negativa, projetou o “mal” sobre Michael. Tal e qual o bode expiatório que é sacrificado para expurgar a culpa do grupo, o jovem entrou nesta história como alvo da incompetência do time adversário para vencer, justamente por ser tão talentoso e competente.

Tanto é assim que continuou com uma atuação brilhante durante a partida, apesar de tudo. Mostrou ser maior ainda como ser humano quando reagiu ao acontecimento com lisura e educação. Quanto à atitude de não deixar a ofensa passar em “branco”, apenas responde à inconsciência e cegueira cultural daqueles que não puderam aplaudi-lo.

Concluindo, para quem não o conhece, Michael, jogador do Vôlei Futuro, acumula os seguintes títulos: campeão mundial infanto; vice-campeão mundial juvenil; campeão sul-americano infanto e juvenil; campeão da Superliga 2004/05; campeão paulista 2004; vice-campeão paulista 2006 e 2009; campeão dos Jogos Regionais e Abertos 2010; e por último, campeão paulista 2010.

Maria Lúcia Lacal Cox D’Avila, psicóloga clínica.

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