sábado, 16 de abril de 2011

Editorial: O massacre na escola e o cinismo de Sarney

O presidente do Senado, José Sarney, resolveu surfar nas ondas do massacre ocorrido semana passada em uma escola do Rio de Janeiro. Sem o menor constrangimento, o velho colecionador de ambiguidades e trapalhadas políticas aproveita o momento de comoção nacional pelas mortes das crianças de Realengo e lança a proposta da realização de um plebiscito para discutir o comércio de armas de fogo no País.

Defende gastar milhões para perguntar à população o que já foi perguntado, e respondido, no ano de 2005: “O comércio de armas de fogo deve ser proibido no Brasil?” - o “não” foi a resposta de 63,94% dos consultados no referendo que custou R$ 270 milhões aos cofres públicos.


Seria muita ingenuidade pensar que o presidente do Senado age movido pela desinformação. Impossível imaginar que Sarney ignore o escandaloso contrabando de armas que assola o País. A proposta do plebiscito é de um cinismo inominável. Primeiro, porque a consulta foi feita há pouquíssimo tempo. Fora a questão do oportunismo e da tentativa de fazer marketing em cima da tragédia, insistir em perguntar se a população deve ou não ter o direito de adquirir armas de fogo é desviar completamente o foco da discussão.

Se um cidadão de bem acha que precisa ter uma arma, certamente vai procurar o caminho da legalidade e resolver toda a burocracia inerente ao processo. O bandido faz exatamente o contrário, e ainda deve achar muito interessante que o Congresso se preocupe em desarmar a população. Não por acaso, o assassino das crianças não procurou uma loja, mas dois outros criminosos, para adquirir o armamento e a munição. Gente como essa tem todo o interesse do mundo que o governo dificulte ao máximo o acesso da população a armas de fogo. É só vantagem para o bandido, porque a vítima fica vulnerável e ele continua com o caminho aberto para se armar, apoiado pelo submundo do tráfico.

Na realidade, não é por brincadeira, luxo ou simples exibicionismo que um cidadão normal decide ter uma arma em casa. Obviamente, é por uma questão de segurança. É exatamente porque o sistema de segurança pública, dever do Estado, está longe de inspirar confiança. Autoridades como o senhor José Sarney fariam um bem enorme para a sociedade se começassem a se preocupar menos com pirotecnias políticas e mais com políticas públicas - no caso das armas, com a criação de mecanismo para combate ao comércio ilegal, ao tráfico internacional e ao contrabando em geral. Para desarmar a população - como se o povo estivesse armado até os dentes - primeiro é necessário desarmar os bandidos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário