terça-feira, 29 de março de 2011

Entrevista: Marcos Pontes e os cinco anos da missão centenária

Marcos Pontes
Há exatamente cinco anos, em 29 de março de 2006, um brasileiro realizava o sonho de sair do chão para contemplar a superfície terrestre a partir de uma vista privilegiada: o espaço, especificamente na Estação Espacial Internacional, da Nasa.

Marcos Pontes, o primeiro astronauta brasileiro, não realizou somente um sonho pessoal, mas de uma nação. Provou que é possível transformar ideiais em realidade e tornou público o longo trabalho no AEB (Agência Espacial Brasileira) para a concretização da primeira missão espacial brasileira.


A bordo da espaçonave Soyz TMA-8, como tripulante da Missão Centenária, batizada na época em referência à comemoração dos 100 anos do vôo de Santos Dumont no 14Bis, Pontes decolou do Centro de Lançamento de Baikonur, no Cazaquistão, rumo ao espaço e à ISS (sigla em inglês para Estação Espacial Internacional), marcando o momento de maior destaque da longa história do Programa Espacial Brasileiro, existente desde 1961.

Para documentar historicamente todos os procedimentos que antecederam a missão, os trabalhos desenvolvidos na ISS durante os 10 dias que permaneceu no espaço e toda a repercussão na sociedade após a ida do primeiro astronauta brasileiro ao espaço, Pontes lança nesta semana em diferentes partes do país o livro "Missão Cumprida. A História Completa da Primeira Missão Espacial Brasileira". Hoje, em especial, a obra será lançada em Bauru, cidade onde o astronauta nasceu e cresceu.

Graduado em engenharia aeronáutica pelo ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), e mestre em Engenharia de Sistemas pela Naval Postgraduate School, na Califórnia, nos Estados Unidos, Pontes reside atualmente em Houston, no Texas, onde permanece à disposição da AEB como representante técnico e astronauta, aguardando a escalação pelo governo brasileiro para a sua segunda missão espacial. É autor ainda do livro "É possível: como transformar seus sonhos em realidade", lançado no ano passado.

Para comemorar os cinco anos da "Missão Centenária", realizada em março de 2006, você está lançando o livro "Missão Cumprida". O que há de novo nesta obra que ainda não tenha sido noticiado pela mídia?
É um livro de 560 páginas, num formato de autobiografia, no qual a narração está dividida em 115 pequenos capítulos distribuídos por oito partes. Na obra, eu conto desde os tempos de Bauru até a minha chegada na Califórnia, em 1998, quando passei a integrar, como astronauta oficial, o Programa Espacial Brasileiro. Depois relato os episódios que aconteceram para que a missão ocorresse, como os detalhes para a seleção. Conto ainda coisas pitorescas e curiosidades. Para quem gosta da parte mais apimentada como política, falo o que aconteceu nos projetos políticos para o desenvolvimento da missão. A ideia é que esse livro funcione como um registro histórico dessa missão e que também ajude pessoas a realizar seus sonhos, em especial, os jovens, que saberão por meio da obra como é possível tornar real o sonho de ser astronauta.

Você poderia adiantar algumas dessas histórias "pitorescas"?
Para quem gosta da parte operacional, eu coloquei uma parte que fala somente sobre o vôo. Eu conto sobre um episódio em que em uma das noites tivemos um alarme de incêndio. Então, eu relato os detalhes de como foi esse alarme, as pesquisas que tivemos que fazer no sistema para descobrir qual era o problema e comento ainda que se houvesse um fogo, o que não houve, foi somente um problema no sistema, quais seriam as consequências e os procedimentos para sobreviver no espaço nessa situação.

Você comenta no prefácio da obra que o seu trabalho como astronauta foi concluído somente cinco anos após a realização da missão. Quais foram as atividades e estudos que você desenvolveu ao retornar do espaço?
Esse número de cinco anos foi uma restrição minha. Todo mundo esperava que o publicasse logo que voltasse da viagem, como todo mundo faz. Mas essa não era a minha ideia, porque eu não queria que o livro fosse somente sobre o evento em si, mas tudo que envolveu a viagem: o antes, o durante e o depois da missão. Para isso, eu precisei desse tempo para observar tanto os resultados científicos da missão quanto os resultados mais práticos como desenvolvimento de produto e tecnologia, além do impacto social, ou seja, como a missão foi encarada no País, se a reação das pessoas e instituições foi positiva ou negativa, o que foi falado, como foi falado. Portanto, enquanto o sistema reagia, eu estava observando, para deixar esse registro na história para que o País evite os mesmos erros e tome as atitudes da maneira correta em missões futuras.

Como você avalia a realidade do setor espacial no Brasil? Houve uma evolução nos últimos cindo anos?
Houve uma evolução. Infelizmente, não tanto quanto a gente gostaria que acontecesse. Porém, antes da missão, se eu perguntasse aleatoriamente em qualquer lugar do País, em Boa Vista, por exemplo, sobre os projetos do Programa Espacial Brasileiro, muitas pessoas iriam se surpreender e até falar que não sabiam que o Brasil tinha um programa espacial. Então, a missão teve um primeiro impacto, por meio de toda a exposição da mídia, que é divulgar o fato do Brasil ter uma atividade espacial, inclusive com um programa de atividades espaciais completo, isto é, com a produção de satélites e veículos lançadores como plataforma de lançamento.

O que ainda é preciso melhorar?
Na minha opinião, falta ainda desenvolvermos o trabalho de motivação de jovens para profissões nas áreas de ciência e tecnologia, principalmente as que tem relação com o programa espacial, além da parte de formação de recursos humanos de uma forma mais avançada e estruturada. É nesses dois aspectos que tenho trabalhado atualmente. Na parte de motivação de jovens eu tenho feito palestras de motivação de jovens a atuarem nas áreas de ciência e tecnologia, já na parte de formação de recursos humanos eu sou pesquisador da USP (Universidade de São Paulo), em São Carlos, onde temos as áreas de engenharias e estou ajudando a construir o curso de engenharia aeroespacial, para formar justamente recursos humanos e direcioná-los para os setores onde falta mais gente para o programa.

A USP é a pioneira na idealização desse curso ou já existe em outras universidades do País?
No País existem quatro cursos, todos criados após a primeira missão espacial brasileira. Um deles é o de engenharia espacial no ITA, criado no ano passado e que está na segunda turma, tendo uma grande procura no último vestibular. Temos outro na UFABC (Universidade Federal do ABC) que também é novo, tem dois anos. Eu não conheço, mas ouvi dizer que também existe um na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e agora o da USP, que está nascendo dentro da engenharia aeronáutica.

Você comentou sobre duas falhas: motivação de jovens e formação de recursos humanos. Existiria ainda outros aspectos sobre o ponto de vista político e econômico que precisam ser melhorados?
O programa espacial sempre sofre reduções orçamentárias. Nos últimos dois anos, por exemplo, o orçamento do programa espacial não pode ser utilizado em mais do 50% ao ano, o que resultou na perda de um orçamento inteiro, o que é ruim para o programa espacial e até para qualquer programa de ciência e tecnologia. O investimento em estrutura não tem acontecido de forma regular ultimamente. Países como a Índia começaram muito depois do Brasil e já ultrapassaram a gente. Outro problema existente também e que eu tenho tentado ajudar nessa área, porque é o papel do astronauta em qualquer país, é diminuir a grande separação existente entre três partes muito importante para o programa: a academia, onde se gera conhecimento; o setor privado, que são as indústrias, onde se gera produtos e tecnologia; e a parte governamental, onde são geradas as políticas, ideias e direcionamentos para onde essa  ciência e tecnologia deve ir para o bem do País como um todo. Apesar dessa separação, acredito que a missão espacial serviu, como toda primeira missão, como um alerta sobre a existência de coisas que precisam ser feitas. É preciso ter uma continuidade.

Atualmente você mora em Houston. É difícil para um astronauta sobreviver no Brasil mesmo depois dessa primeira missão?
A profissão do astronauta no Brasil é difícil porque não está oficialmente estabelecida dentro de qualquer organização. Em termos de desenvolvimento dos trabalhos que fazemos, eu, por exemplo, sou brasileiro, trabalho para a Agência Espacial Brasileira e moro em Hinston. Eu fico lá à disposição do Brasil para missões espaciais brasileiras. Quando o País requisitar é parte da minha função realizar missões para o Brasil e não para a Nasa ou qualquer outro país. O trabalho do astronauta consiste basicamente também em fazer as relações institucionais como a relação do programa espacial com o público e o setor público.

O que mais marcou você durante os 10 dias que permaneceu no espaço? O que mudou em você como profissional e pessoa?
A viagem representou o cumprimento de uma missão que eu recebi da Agência Espacial Brasileira em 1998: o de levar a bandeira brasileira ao espaço pela primeira vez. Foi uma sensação de realização. Sobre o aspecto profissional, houve um aumento das minhas atividades. Já como ser humano, passei a dar mais valor nas coisas simples da vida e a perceber a importância das pessoas em sua vida, que não existe diferença, todos somos habitantes de uma mesma superfície terrestre.

Há uma previsão de quando ocorrerá a segunda missão espacial brasileira?
Ainda não há uma previsão. Eu estou à disposição. Existe uma possibilidade, mas é baixa, porque o programa espacial brasileiro tem outras prioridades, mais especificamente com o investimento em produção e lançamentos de satélites.

Você acredita que dentro do governo da presidente Dilma Roussef, o programa ganhará mais atenção ou os investimentos podem diminuir ainda mais?
Todo novo governo tem um período de adaptação e os cortes orçamentários são uma consequência desse momento e, apesar de ser um governo de sucessão, é um governo com uma nova liderança. Acredito que uma vez passados os cortes e a fase de adaptação, os setores de ciência e tecnologia, assim como a educação, ganharão um destaque, afinal deles dependem a criação de empresas, produção de mão de obra e todo o desenvolvimento do País. Espero que o novo governo dê uma maior atenção para esses segmentos. (Barbara Nascimento)

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