sexta-feira, 18 de março de 2011

Entrevista: Ações para uma segunda década da cultura de paz

"O ser humano não está mais suportando a situação limite que está vivendo com a violência, corrupção, desonestidade, mentira e desconfiança. É preciso uma ação que gere mudança". Essa é a afirmação da psicopedagoga e coordenadora do Comitê da Alta Noroeste Paulista para a Década da Cultura de Paz em Araçatuba, Maria Elvira Ribeiro Tuppy.

Na terça-feira, Vivi Tuppy, como é mais conhecida, abriu o 86º Fórum do Comitê da Cultura de Paz, em São Paulo, onde apresentou aos secretários de educação, cultura, comunicação e diversas autoridades municipais e estaduais, além de integrantes do poder Judiciário, a estrutura do "Educadores da Paz", programa idealizado e consolidado pelo comitê de Araçatuba para o desenvolvimento da cultura de paz.

Resultado da parceria entre a Associação Palas Athena e a Unesco (Órgão das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), o comitê foi criado em 2000. Após 10 anos de trabalhos, inicia a segunda década com o intuito de destacar os resultados de seus programas, consolidar e implantar as iniciativas não efetivadas na primeira década como os programas "Gestores da Paz" e a Justiça Restaurativa, além de ampliar a sua atuação na municipalidade. Com o apoio da Folha da Região, o comitê promove fóruns mensais na sede do jornal abertos à comunidade para discussão de medidas de estímulo à cultura de paz.

O que é o Comitê para Cultura de Paz e por que Araçatuba foi escolhida para a sua instalação?


O comitê é uma iniciativa da ONU (Organização das Nações Unidas) e funciona a partir de uma parceria entre a Associação Palas Athena e a Unesco, com o intuito de fomentar e inspirar ações construtoras de cultura de paz. Como eu morava em Araçatuba havia mais de 30 anos e sempre estive envolvida com a cultura de paz, fui estimulada a montar o Comitê Paulista da Cultura de Paz em Araçatuba, o qual denominei Comitê da Alta Noroeste Paulista. Após sua criação, recebemos o apoio da Foha da Região, onde promovemos os fóruns de discussão, e também do Interação, onde estruturamos os programas.

Quais foram os projetos criados na primeira década de desenvolvimento da cultura de paz?


O grande programa que nós temos em Araçatuba hoje é o "Educadores da Paz". O programa consiste em educar o educador para construir cultura de paz. Com metodologia, educação permanente e sistematizada, está sendo desenvolvido por meio da diretoria de ensino de Araçatuba em toda rede estadual de ensino há oito anos. O outro programa é o comitê, que depois que nós instalamos na Folha da Região, ganhou um apoio muito consistente. Além desses, está em desenvolvimento na rede estadual também e como desdobramento do primeiro programa, o "Gestores da Paz". É outro programa em que o trabalho deve ocorrer em rede, com pessoas que tenham condições de acolher a criança, a infância e a juventude. Para seu desenvolvimento, estamos buscando contar, além da Diretoria de Ensino de Araçatuba, com o Comdica (Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente), o promotor e juiz da Vara da Infância e Juventude, os conselhos tutelares, as secretarias municipais de educação e assistência social, representantes da Câmara Municipal e dos Cras (Centros de Referência da Assistência Social). Enfim, autoridades municipais e pessoas da comunidade com perfil de liderança para desenvolver ações conjuntas em rede. Mesmo que de forma devagar, é um programa que está caminhando.

O que ainda é preciso ser feito para que esses programas se consolidem?


Dentro do "Educadores da Paz", nada mais, porque nós temos o apoio da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, e enquanto Diretoria de Ensino esse programa está altamente consolidado. Com relação aos "Gestores da Paz", eu preciso ainda dessa rede de pessoas que são líderes, têm decisão e liderem essa iniciativa. Ainda não consegui que as pessoas entendam a necessidade desse movimento. O comitê está bem estruturado. Agora, nós precisaríamos ter também o envolvimento da Secretaria Municipal de Educação, porque quando a criança entra na rede estadual ela já passou pela rede municipal e chega com muitos vícios, atitudes e comportamento que expressam a violência, o abandono e a negligência. Se nós temos o programa dentro da rede municipal, a criança após passar pela creche e o primeiro ciclo do ensino fundamental, chega na rede estadual com uma resposta ao programa muito mais efetiva.
Araçatuba foi a pioneira na criação da Justiça Restaurativa, porém, não conseguiu implantar o programa no Fórum da cidade.

Em quem consiste essa justiça e quais as vantagens dela com relação à justiça comum?


A Justiça Restaurativa nasceu de um simpósio sobre o tema realizado em 2005, em Araçatuba, e tem como objetivo apoiar e acolher o ofensor, a vítima e a comunidade no sentido da não penalização, mas, sim, da resolução do conflito. A Justiça comum é punitiva e penalizante. O ofensor vai para o sistema prisional, cumpre a pena e volta para a sociedade. Ela não atende a vítima e é vista apenas para reconhecer o ofensor. Já a Justiça Restaurativa vai ter uma ação conjunta com as três partes envolvidas no sentido de promover a resolução do conflito. Não estou negando a penalização, porque quando necessário, ela é válida. Porém, muitos problemas judiciais podem ser resolvidos por meio de ações pacificadoras de conflito, que é a Justiça Restaurativa.

Há uma perspectiva para que a Justiça Restaurativa seja implantada em Araçatuba? Qual foi o impedimento?


Penso que a comunidade jurídica de Araçatuba e as universidades de direito ainda não conseguiram entender a necessidade de uma ação conjunta e de um programa efetivo de implantação da Justiça Restaurativa. Nós dependemos do Ministério Público e dos termos jurídicos. Estamos esperando as portas se abrirem. Nós temos o programa altamente desenvolvido em São Paulo, São Caetano do Sul, Porto Alegre e em várias cidades do Nordeste.

Qual projeto o comitê tentou realizar junto à Câmara de Araçatuba?


Logo que a vereadora Edna Flor assumiu a presidência da Câmara, nós tentamos implantar no Legislativo o ConPaz (Conselho Parlamentar pela Cultura de Paz). O programa ampliaria os trabalhos do comitê e envolveria o poder público, como já ocorre na Assembléia Legislativa de São Paulo. Mês entre os vereadores de Araçatuba gerou muitas discussões e acabamos não conseguindo efetivá-lo.

Você acredita que os entraves para a efetivação dessas ações seria o poder público?


Eu não diria que os entraves são os órgãos públicos, e sim as pessoas, porque eu trabalho com pessoas e não com cargos e funções. Não é a instituição Folha da Região, por exemplo, que tem apoiado e ajudado a desenvolver a cultura de paz, são as pessoas da Folha da Região.

É possível consolidar a cultura de paz em Araçatuba?


Não tem consolidação. A cultura de paz é um processo, mas porque o conflito é natural. O que temos de consolidação são os programas. Um exemplo disso é o Japão, em que não há saque, apesar da situação limite vivenciada nos últimos dias. Os japoneses estão mostrando que é possível ter o exercício efetivo do respeito, honestidade e do bem comum. Essa situação desafiadora que o Japão está vivendo está mostrando para a comunidade mundial que é possível, mesmo em uma situação limite, existir respeito entre as pessoas.

Quais são os trabalhos previstos para esta segunda década?

Enquanto comitê, a nossa proposta é trazer ações que já existam em Araçatuba. Temos a questão do silêncio que nasceu de uma reunião do comitê e a própria Justiça Restaurativa. Vamos também experimentar uma nova formação com mesas redondas para discutir questões pertinentes e que foram levantadas durante a primeira década nos fóruns do comitê e que podem ser revertidas agora em ações mais práticas.
Os programas existentes hoje nasceram das reuniões do comitê que conta com a participação da população.

Pensando nisso a cultura de paz pode ser considerada uma voz das pessoas?

Eu acredito que é um anseio de todos nós seres humanos. Nós não estamos suportando mais a situação limite que estamos vivendo com a violência, corrupção, desonestidade, mentira e desconfiança. Isso está sendo insuportável. Nossas crianças estão sendo absolutamente desrespeitada e a vida de uma certa forma. O ser humano não aguenta mais e nós temos que ter uma ação.

Enquanto cidadã, quais ações as pessoas podem executar e de uma maneira geral contribuir para o desenvolvimento da cultura de paz?


Enquanto cidadã, se você começar a respeitar a si mesma e poder respeitar o outro, ter um compromisso deliberado com a honestidade, com os valores universais como o respeito, a responsabilidade e a confiança no outro dentro do seu universo familiar e em seu entorno, você já está construindo uma cultura de paz. Porque a cultura de paz tem como base a preservação da vida, o processo democrático, o diálogo, a compreensão e inclusão do outro, o respeito ao planeta, a solidariedade e a generosidade. Se cada cidadão puder se comprometer autodeliberadamente em implantar e viver esses valores universais dentro da sua empresa, família, escola e bairro, seja no público ou no privado, nós mudamos a atual realidade. O Japão está mostrando isso. Porém, temos que fazer isso não sendo hipócritas, não pela via do medo, mas pela via da parceria.

E o empresário, político ou líder na sociedade, de que forma pode contribuir?


Eles devem vir aos comitês, participar dos fóruns na Folha da Região, porque aqui a pessoa terá contato com todas as possibilidades da cultura de paz.

Qual a contribuição da mídia para o desenvolvimento da cultura de paz?


Eu penso que a mídia tem uma responsabilidade muito grande no sentido de fazer minimamente o processo democrático de balanceamento das notícias. Temos as más e boas notícias, as que inspiram e evidenciam as ações e também aquelas agregadoras, como a violência e todo o seu entorno. A questão é como isso é passado ao público. Portanto, penso que a mídia pode balancear. A outra dimensão é a responsabilidade de toda a mídia. Ela precisa ter um compromisso com a construção de uma cultura de convivência. (Jean Oliveira)

Nenhum comentário:

Postar um comentário