segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A participação dos brasileiros na 2a. Guerra - Dica de leitura para professores e estudantes

Jambocks

Passados 70 anos, a Segunda Grande Guerra parece às novas gerações algo tão distante e exótico quanto a Guerra dos 100 anos. Neste contexto, a participação dos soldados da Força Expedicionária Brasileira na Guerra vem caindo no ostracismo devido à ausência de uma filmografia que resgate para as novas gerações este momento da história. O projeto Jambocks, de Celso Menezes e Felipe Massafera, lançado pela editora Zarabatana, vai resgatar agora parte desta dívida com o passado. (Resenha feita para o Programa Jornal e Educação pelo jornalista e crítico de quadrinhos Carlos Ely Abreu)

“A ordem deles era: ‘Não se entregar!’ – ‘O reforço vem! Lutem e esperem!’ Mas “eles” não sabiam – ou se sabiam, ignoravam – que a aviação ‘deles’ não operava mais por ali… A munição ia acabar, a comida ia acabar, o frio castigava, mas “eles” não se entregavam! Os ‘tedescos’ diziam pra eles, que se entregarem para nós, brasileiros, era melhor! Era garantia de sobrevivência! Os estadunidenses ‘passavam fogo’ mesmo!”
Em três dias eu comi duas vezes, só! Um dia veio uma ‘ração’ dos estadunidenses, no outro veio uma pior ainda! A gente aquecia no capacete! Se colocasse depois, o capacete quente na cabeça gelada pela neve, dava uma “coisa” chamada ‘escama de peixe’! Ficava em carne viva! O capacete era pesado e ninguém gostava de usar… Mas todo mundo usava e nem precisava os oficiais recomendarem aos Sargentos e os Sargentos nos ‘mijar’! “Todo mundo usava porque às vezes você ouvia só um deslocamento de ar’ – ‘Shhhhhhfffffff” e era projétil saindo do nada e a qualquer hora – mesmo não sendo avanço ou tiroteio! Às vezes eu acho que algum praça alemão olhava lá de cima e pensava: ‘Vou atirar naquele ali!’ Mas o pior de tudo era o silencio da noite! O silêncio da noite na guerra é o único que pode ser ouvido de tão forte que é! Tudo que se move é suspeito… A respiração, tudo!

Pedro Bozzetti - Ex-Combatente – Soldado – 1º Regimento de Infantaria – Corpo Médico
Texto escrito em 1993

Passados 70 anos, a Segunda Grande Guerra parece às novas gerações algo tão distante e exótico quanto a Guerra dos 100 anos. Algo que a gente vê nos filmes, estuda nos livros escolares mas não nos diz absolutamente respeito. O tempo e a eclosão de outras centenas de guerras na Ásia, África, América e na própria Europa fizeram com que a humanidade acabasse esquecendo os horrores da maior catástrofe da história.
Seis anos de conflitos causaram mais de cinqüenta milhões de mortos, deixaram oito milhões de mutilados, destruíram centenas de cidades e dizimaram florestas inteiras que jamais se recuperaram.
Neste contexto, a participação dos soldados da Força Expedicionária Brasileira na Guerra vem caindo no ostracismo devido à ausência de uma filmografia que resgate para as novas gerações este momento da história.  O projeto Jambocks, de Celso Menezes e Felipe Massafera, lançado pela editora Zarabatana vai resgatar agora parte desta dívida com o passado.
História recontada
Em entrevista concedida à Folha de S.Paulo, Celso Menezes, roteirista de Jambocks revelou que a inspiração para o projeto veio de conversas com os poucos ex-combatentes ainda vivos: “Quando eles voltaram da guerra, o presidente Vargas estava no poder há 15 anos e tinha medo dessa onda de liberdade que ganhou força com a vitória dos aliados. Eles desfilaram no dia que chegaram, mas depois todos foram proibidos de falar no assunto. Muitos ficaram sem carreira, foram perseguidos diretamente e a esmagadora maioria chegou em péssima condições físicas ou psicológicas e sem nenhuma assistência, inclusive financeira. Existe uma grande incidência de suicídios e alcoolismo entre os veteranos da FEB e da FAB também. Os veteranos se sentem completamente esquecidos depois de terem se sacrificado tanto”.
A saga dos pracinhas será contada em quatro volumes. O primeiro número mostra a entrada do país na guerra , os bastidores das negociações entre o presidente americano Roosevelt e o ditador Getúlio Vargas que só decidiu por qual lado o Brasil lutaria nos últimos instantes e depois de garantir investimentos americanos para a criação da indústria siderúrgica nacional.
O roteiro de Celso Menezes costura fatos históricos e fictícios para dar maior dinamicidade à narrativa. No início da história vemos a mobilização popular para que o país declarasse guerra à Alemanha. As notícias de navios brasileiros torpedeados por submarinos nazistas causavam verdadeiro furor. Boatos amplamente difundidos na época davam conta de que Hitler teria dito que era mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra. A mobilização tomou vulto e o país acabou enviando para a Europa 25.334 soldados. Desses combatentes, 467 morreriam na Europa.
Traço sofisticado
Além de resgatar para as novas gerações as histórias de heróis anônimos, Jambocks também tem outros méritos e qualidades.
O primeiro ponto a favor é a qualidade artística do projeto. Felipe Massafera, responsável pela arte da série, usa diferentes técnicas de desenho para contar a história. Em alguns momentos do primeiro volume o traço de Felipe se assemelha muito ao mestre americano Alex Ross, aclamado mundialmente por seu estilo “fotográfico”.
Outra qualidade de Jambocks está no roteiro. Ao optar por contar a história na perspectiva de pessoas comuns, Celso Menezes torna a narrativa mais humanizada e próxima do leitor. Algo semelhante foi desenvolvido pelo artista francês Emmanuel Guibert  na série “A guerra de Alan” (já comentada neste blog e que será em breve lançada no Brasil).
A única ressalva ao projeto é quanto à dimensão dos livros que compõem a série. Com pouco mais de 30 páginas (no tamanho revista), o primeiro volume “Prelúdio para a Guerra”, não consegue aprofundar suficientemente a história, tornando o roteiro um tanto raso. Um projeto que pretende resgatar para as novas gerações um momento tão decisivo da história precisa ter um pouco mais de fôlego. Apenas como exemplo, lembramos do projeto “Chibata – João Cândido e a revolta que abalou o Brasil” lançado pela editora Conrad em 2008 e que tinha mais de 200 páginas no formato Album. Esta crítica, no entanto, não deve desencorajar Celso Menezes e Felipe Massafera. Ao contrário. Esperamos que o projeto ganhe corpo e possa – quem sabe – inspirar outros projetos sobre a história da participação brasileira na Segunda Guerra.
Para quem ficou curioso em conhecer mais sobre o Projeto Jambocks, fica a dica para visitar o blog da obra: jambocks.blogspot.com
Texto: Carlos Ely Abreu - http://quadrinhos-nona-arte.blogspot.com/
(Especial para site do Programa Jornal e Educação)

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